Com autorização da autora, compartilhamos o artigo a seguir, publicado em https://cilza.substack.com/p/o-bonde-das-fadas-e-das-pombas-contra. Nosso agradecimento pela leitura, pelo artigo gentil e pela generosidade em permitir a sua publicação aqui.
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O Bonde das fadas e das pombas contra a ditadura
Breve história da editora de Elvira Vigna, a magnífica
Cilza Bignotto
Departamento de Letras
Professora de Literatura Brasileira e Literatura Infantil
Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
cilza.substack.com

Hoje é 31 de março, mês de Marte para os romanos antigos, mês das mulheres para alguns brasileiros contemporâneos. Como os homens são de Marte e podem ser de morte, e como hoje é dia de lembrar o mortífero golpe de 64, resolvi tratar da história épica de uma mulher e sua editora contra a ditatura militar.
Canta, ó musa blogueira, os feitos de Elvira Vigna (1947-2017), artista de celebrada grandeza, que fundou a editora Bonde nos anos de milagre e chumbo, para que não sejam esquecidos – nem os feitos milagrosos, nem os fatos de chumbo.
No começo da década de 1970, a literatura infantil brasileira florescia viçosa e renovada, apesar da repressão imposta às produções culturais pela Ditadura Militar, sobretudo após a decretação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), em 13 de dezembro de 1968, que suspendera direitos e garantias constitucionais individuais.
Ana Maria Machado, que estava lá, fazendo literatura brilhante, explicou a aparente contradição:
Como o AI-5 trouxe um fechamento político e uma repressão muito acentuados, alguns dos intelectuais que queriam dizer alguma coisa (e se sentiam pressionados intimamente para conseguir se manifestar de alguma forma) saíram em busca de brechas por onde tentar passar. Foram quase intuitivamente buscando gêneros alternativos, considerados menores, que não chamasse tanto a atenção das autoridades e que permitissem o uso de uma linguagem altamente simbólica, polissêmica, multívoca. Faziam uma aposta num leitor inteligente que os decifrasse e embarcasse com naturalidade em seu universo metafórico. Esses gêneros acabaram constituindo uma marca da época. Foi o caso da chamada poesia de mimeógrafo, das letras das canções e da literatura infantojuvenil. 1
Dessas circunstâncias de pirraça surgiu a editora Bonde, uma brecha por onde passaram vários livros criativos e provocativos. Dois deles se tornaram clássicos infantis: A fada que tinha ideias, de Fernanda Lopes de Almeida, e Breve história de Asdrúbal, o terrível, de Elvira Vigna.
A Bonde começou a funcionar em 1971, no apartamento onde Elvira, então com 24 anos, vivia com seu companheiro, Eduardo Prado, e a filha Carolina, de nove meses. Lá também operava a editora Poster Graph, que produzia periódicos alternativos. Elvira e Eduardo eram jornalistas e haviam perdido os empregos ao mesmo tempo. Para sobreviver, criaram as editoras.
A Poster Graph publicava A Pomba, um impresso marginal que parodiava a Fairplay, revista de nus femininos onde ambos haviam trabalhado. Eduardo também era escritor: os textos de A pulga ninfomaníaca eram dele e de Joaquim Assis, que usavam os pseudônimos Edu e Quincas. O livro, com cartuns de Alcindo Leipziger, ilustrações de Elvira, capa e prefácio de Ziraldo, saíra pela editora Degrau em 1969.
Ninguém conta melhor como funcionavam as editoras caseiras do que a própria Elvira. Em entrevista de 2015 ao blog português Som à Letra, ela recordou o cotidiano da criação e edição das revistas e livros que voavam abaixo dos radares militares:
2 – O que vos motivou a criar esta publicação [A Pomba]?
Uma atitude política. Nossos empregos eram em uma revista de nu feminino, a ‘fairplay’. Resolvemos fazer uma paródia da ‘fairplay’ usando a nudez de forma política:
– a nudez não seria só a feminina, como de hábito, mas também masculina, o que foi um escândalo;
– a revista não teria uma aparência luxuosa, com papel brilhante e em cores, para ‘ricos’;
– contrataríamos modelos não aceitos pelo establishment, como negros, pessoas com corpos comuns e cenários cotidianos;
– os assuntos atacariam o pensamento dominante, mas de modo a que a censura não pudesse proibir: escrevíamos sobre o nazifascismo, psicanálise, fazíamos ironias com a moral burguesa, púnhamos fotos de mendigos como um contraponto à propaganda oficial do ‘milagre brasileiro’ etc.
3 – Que princípios orientavam a vossa acção no início da década de 70?
Queríamos poder exprimir maneiras de ser e viver, pensamentos e hábitos considerados ilegais. (…)
5 – Como funcionava a vossa rotina? A sua casa era o centro da criatividade…
A casa era aberta. Ninguém fechava a porta. O edifício estava em construção e, na verdade, ainda não tínhamos licença da prefeitura para habitar o apartamento em obras. Então era um movimento constante o dia inteiro e não só de jornalistas, mas também de pedreiros e operários da construção do edifício. Não tinha nada que pudesse ser chamado de ‘rotina’.
6 – Guarda alguma história que a tenha marcado em particular sobre esta publicação?
O desenhista argentino Quino, da personagem em quadrinhos Mafalda, nos visitou um dia. Ele errou o apartamento (justamente pela dificuldade em entrar em um edifício ainda em construção). Minha prancheta ficava de frente para a janela que dava para o outro apartamento do andar. Quando levanto os olhos, tem aquela pessoa acenando freneticamente para mim, do outro apartamento, perguntando como fazer para ir até lá. (…)
8 – Como recorda os tempos desta publicação?
Risadas e mais risadas, inclusive da censura, que liberava as edições para a gráfica sem notar que quando falávamos do nazifascismo alemão estávamos falando deles.
Em agosto de 1972, outra publicação passou a ser editada no apartamento: Pipocas, “jornal quinzenal da garotada”, que tinha Fernanda Lopes de Almeida como editora. O primeiro número, de 16 páginas repletas de ilustrações e fotografias, reproduzia trechos de Asdrúbal, o Terrível, de Elvira, e A fada que tinha ideias, de Fernanda.

No número 2 da Pipocas, um anúncio recomendava os dois livros como “lançamentos da editora Bonde em convênio com o Ministério da Educação e Cultura”. A legenda de A Fada que tinha ideias é ambígua, talvez de propósito: após o nome da autora, lê-se “Prêmio Jaboti [sic] de Literatura de 1971”.
Fernanda Lopes de Almeida realmente conquistara o prêmio, mas com o livro Soprinho, na categoria Literatura Infantil. Soprinho fora publicado pela Melhoramentos, então a maior e mais tradicional editora de livros infantis do país, pelo mesmo convênio com o Ministério da Educação e Cultura que beneficiara a Bonde.
Editoras grandes e pequenas, favoráveis ou contrárias ao regime tiveram incentivos variados para publicar livros infantis, o que impulsionou a profissionalização de autores, editores, ilustradores, tradutores e outros agentes literários. A literatura infantil era uma festa… e uma fresta.

A breve história de Asdrúbal, o terrível e A fada que tinha ideias também foram anunciados na 2001, outra revista da Poster Graph, que era editada por Paulo Coelho e durou apenas dois números. Foi na 2001 que Paulo Coelho e Raul Seixas se conheceram… mas essa é outra história, que você pode ler no ótimo Raul Seixas: não diga que a canção está perdida, de Jotabê Medeiros.
A Pipocas deixou de circular após o terceiro número. No final de 1972, o relacionamento entre Elvira Vigna e Eduardo Prado terminou. A Poster Graph faliu, e o apartamento foi vendido. A editora Bonde faliu um pouco depois, aos cinco anos de idade. Talvez, tenha resistido um pouco mais do que a Postergraph porque seus livros infantis vendiam como água.
A fada que tinha ideias foi o grande sucesso editorial de 1972, segundo o Instituto Nacional do livro, e continua um best-seller, assim como Soprinho. Fernanda Lopes de Almeida, que era psicóloga e neta da célebre Júlia Lopes de Almeida, fez carreira como autora de livros infantis excelentes, hoje publicados pela Ática. Sua vida e sua obra carecem de estudos. Não há um mísero verbete da wikipedia sobre ela, que foi uma das autoras para crianças mais lidas do século passado.
Existe esta entrevista que ela deu para a revista Crescer, em 2013. Vale a pela lê-la.

O primogênito Asdrúbal ganhou três irmãos, ao longo dos anos de 1970 e 1980: Asdrúbal no museu, A verdadeira história de Asdrúbal, o terrível, O triste fim de Asdrúbal, o terrível. Depois de muito tempo esgotados (e disputados a tapa em sebos), os livros do monstrinho foram relançados, em edições caprichadas, pela FTD Educação em 2024.
Elvira Vigna contava o seguinte sobre a gestação de Asdrúbal:
“Escrever para adulto naquela época era muito complicado, porque tinha um problema de censura brabésimo. Então, escrevi o Asdrúbal, que é um monstro fascista, que não presta. Como era para criança, não tinha censura prévia”.
Asdrúbal, o monstrinho facista, e Clara Luz, a fada que tinha ideias contra autoritarismos, estão fazendo 55 anos, mas continuam divertidos, libertários… e atualíssimos. Se você ainda não os conhece, sugiro que arranje um encontro com eles.
Ficou encantada com Elvira Vigna? Leia os muitos livros infantis dela, e seus romances e contos para adultos, premiados e maravilhosos. Conheça mais sobre suas traduções, ilustrações e outros trabalhos intelectuais finíssimos no site elvira.vigna.com.br, mantido por sua filha Carolina Vigna Prado.
Esta breve história da editora é parte (modificada e expandida) de um artigo meu, Soprinho, de Fernanda Lopes de Almeida: a literatura infantil como “brecha” para os intelectuais brasileiros no período da Ditadura Militar (1964-1975). O artigo saiu na revista Argentina Catalejos, no ano passado, e esmiúça muito do que esbocei neste post.
No mesmo número da Catalejos, você pode ler o belo artigo A liberdade das fadas: livros para crianças em tempos de autoritarismo, de Patrícia Raffaini. Ela analisa o texto de A fada que tinha ideias e as ilustrações da primeira edição, feitas por Elvira Vigna. Patrícia fotografou essa primeira edição, hoje raríssima, e me mandou uma cópia, presente que agradeço demais.
Para terminar, recomendo uma entrevista que Elvira deu ao Jornal do Brasil, em 16 de dezembro de 1971, sobre a editora Bonde, o sucesso de A fada que tinha ideias, seu trabalho de ilustração. Ela está linda na foto, aos 24 anos, cheia de sonhos e planos milagrosos contra os monstros de chumbo.

P.S. Ninguém ainda estudou pra valer a história da editora Bonde e a escreveu como se deve. Quem se candidata ao desafio? Que seja um coração valoroso e amoroso.
1 – MACHADO, Ana Maria. Pelas frestas e brechas: a importância da literatura infantil brasileira. Ponto de fuga: conversas sobre livros. São Paulo: Cia. das Letras, 2016.